Um barbudo na Madeira - III - EMdurance Runner
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Um barbudo na Madeira – III

Medo
Falta um mês (menos um dia) para o início do MIUT, para eu cruzar a linha de partida ao lado de outros 599 atletas, e estou apavorado! Sinto um medo maior que aquele que senti quando era miúdo e vi o Seven às escondidas dos meus pais. Sempre que vejo uma foto da prova, um vídeo da prova, um relato de alguém que já lá esteve, mesmo que seja motivacional, fico com um misto de ansiedade e de pânico. Os batimentos disparam e todo eu sou sensações esquisitas e apertos no estômago.
Se me perguntarem se o problema é falta de treino, terei de dizer que não. O treino tem sido intenso quanto consigo. Semanas de 70 kms e 3000D+ são uma constante. Treinos de escadas e algum ginásio (não tanto quanto deveria) fazem sempre parte da ementa. Monsanto, Sintra e Montejunto – a qual agradeço ao Filipe por ma ter apresentado – têm sido as escolhidas. Monsanto porque está perto de casa, Sintra pela variedade de trilhos e Montejunto porque tem mais altimetria e subidas muito longas com bom desnível. Mas nada, nada, ou quase nada, pode preparar uma pessoa para a brutalidade que é o MIUT.
E o meu primeiro grande medo não é saber ou não se chego ao fim antes das 32h limites. O meu maior medo é saber se consigo sobreviver aos primeiros 30kms da prova e conseguir fazê-los em 7h30m. Estes primeiros 30kms têm uns impressionantes 3000 positivos, o que, vendo bem, é o que fazia mais ou menos por semana. São subidas longas, técnicas e com escadas. Se no ano passado o limite era de 8h, este ano retiraram-lhe 30minutos, que pode ser “a morte do artista”. A ideia é conseguir chegar lá com uma folga de 1hora e, a partir daqui, ir aumentando esta folga nos limites seguintes, para que, e se, chegar à parte final, consiga descer tudo o que subi antes das 8h da manhã.
Depois, claro, o outro medo prende-se com o facto de nunca ter corrido mais de 65kms seguidos e não faço ideia se aguento tanto km, tanto desnível e tanta hora de uma só vez. Já aqui disse que quando pensei em arranjar treinador (já depois da inscrição feita), a primeira coisa que ele me disse depois de ver o meu historial foi que era muito cedo para fazer o MIUT. E esta é a mesma opinião de quem já o fez ou de quem já fez provas igualmente longas e duras. Eu próprio sei – por muito que me custe admitir – que pode ser, realmente, cedo para lá ir. Afinal de contas, comecei a correr em trilhos há cerca de ano e meio e fiz o meu primeiro ultra há um ano. E quanto mais treino, mais percebo a tarefa hercúlea a que me propus. Quando faço treinos de 6-7horas e lhe meto 2200 positivos, com descidas técnicas de 2kms, e fico todo rebentado das pernas, percebo que isto não é nem uma décima parte daquilo que me espera na Madeira.
Por último, não sei como vou reagir ao correr durante duas noites. Leio relatos de malta que se deixa dormir enquanto corre. Que para para descansar um pouco e adormece imediatamente. Que começam a ter alucinações e a ver o caminho por onde não o há. E aquilo é alto, aquilo é cheio de ravinas e de crateras onde se cair nunca mais ninguém me encontra. E é óbvio que isto também me assusta bastante. Não me assusta o deixar-me dormir, assusta-me o poder cair por uma ravina a baixo e morrer. Pior!! Não acabar a prova por causa disso!
Por outro lado, para me afastar estes fantasmas que, por agora, me perseguem os pensamentos, sei que lá vou ter a minha família. A minha namorada, irmã e pais vão lá estar naqueles dias e, espero eu, na meta, não importa as horas a que chegue. Sei que o apoio deles vai ser fundamental para os momentos em que a cabeça me vai dizer para desistir, que já chega ou que o meu corpo não foi feito para aquilo.
Por outro lado, sei que este medo que sinto é bom. Que me faz encarar a prova com o respeito que ela merece e não como se fossem “favas contadas”. Sei que este medo me fará ser cauteloso na minha progressão e, ao mesmo tempo, me fará avançar para não desiludir quem acredita em mim e a mim próprio.
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