Um Barbudo na Madeira - II - EMdurance Runner
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Um Barbudo na Madeira – II

O Guloso.
Tivesse eu nascido no tempo da Monarquia e tivesse a sorte de pertencer à família real, quando chegasse a Rei o meu cognome seria, sem dúvida nenhuma, ‘O Guloso‘. Também poderia ser ‘O Gordo’, mas a verdade é que sempre fui mais guloso que gordo e, para efeitos dramáticos, guloso funciona melhor neste texto.
A minha infância e adolescência foi passada no Alentejo, afastado das cidades, onde as brincadeiras passavam por jogar ao berlinde, às escondidas, à sirumba, a saltar encostas com mais de 3metros de altura para montes de terra mais ou menos fofa. Isto criava amizades e, claro, os dias de aniversário eram dias de grande festa onde reuníamos os nossos amigos em nossa casa para comer rissóis, bolos de vários tipos, mousses de chocolate, gelatinas, tortas Dan Cake, e tudo aquilo que mais conseguíssemos empurrar goela abaixo. E eu conseguia empurrar muita coisa, mesmo muita. Não saía da mesa enquanto não tivesse provado um pouco de tudo, pelo menos duas vezes. Só quando atingi a idade adulta é que deixei de ser o guloso comilão que era e me tornei uma pessoa mais ponderada, exceção feita em rodízios de sushi.
Mas, curiosamente, foi na fase adulta que voltei a ser guloso. Não tanto por açúcar e doces, mas por outro tipo de vicio. Depois de quase 2 anos a trabalhar sentado em frente a um computador, adquiri tal forma que já tinha de desabotoar as calças para estar minimamente confortável. Decidi começar a correr. Com as primeiras corridas veio um notório emagrecimento. Com o passar dos kms em treino, decidi participar na primeira corrida oficial.  Tal como não me lembro qual foi o primeiro doce que comi e me tornou num devorador de bolos, também não me lembro qual foi a minha primeira corrida oficial. O que sei, e me lembro, é que aquele ambiente que envolve uma corrida me tornou num ávido devorador de provas. A partir desse momento, andava sempre à procura de outra e de mais outra e sempre que fazia uma, ficava logo a pensar que a teria de repetir no ano seguinte. Das provas de 10kms até à distância da meia-maratona foi um pulinho. Mas até à distância da Maratona, foram mais 4 anos. Não sei explicar porquê. Medo não era. Talvez fosse respeito pelos 42,195 metros. Sim, era mesmo isso. Respeito. Afinal de contas, se 21kms já me custavam, nem queira imaginar o que seria correr o dobro da distância. Entretanto, depois de fazer a primeira Maratona (Lisboa, 2014), fiz logo a segunda (porto,2014) no mês seguinte e uma terceira (Madrid, 2015) passados 5 meses da segunda. Em 6 meses fiz 3 maratonas. Depois de tanto tempo a controlar-me, devorei esta distância como se necessitasse dela para viver.
Mas se na estrada tive um percurso pautado por alguma sensatez com o aumentar nas distâncias, nos trilhos a história foi um pouco diferente. Em finais de Outubro de 2014 fiz a minha primeira prova de trilhos, coisa de 14kms, que me deixou completamente louco pela modalidade. A fome que me deu foi tanta, mas tanta, que em Dezembro já estava a fazer uma prova de 30kms – que me levou 5horas a completar e me deixou sem conseguir andar sem arrastar os pés nos dois dias seguintes – e em Março de 2015 estava a fazer o meu primeiro ultra trail, o Inatel Piódão Ultra Trail, com 53kms – que me levou 10h27′ a concluir. No espaço de 5 meses passei de uma prova de nivel 1 de 14kms para uma prova de nivel 3 com mais de 50kms. Pior, daqui por 3 meses vou estar a correr no Madeira Island Ultra Trail, uma prova com 115kms. Uma prova que muitos lá vão depois de alguns anos a correrem, de muitas outras provas e quando se sentem realmente preparados. Eu, vou lá 16 meses depois da minha primeira incursão nos trilhos.
Isto será o equivalente a ver uma mesa cheia de bolos, inclinar uma ponta, colocar-me na outra de boca aberta e deixar entrar tudo, pratos incluídos.
Como ainda tenho algum discernimento, percebi que se queria enfrentar uma ‘mesa’ destas, teria de encontrar alguém que me ajudasse. Depois de o encontrar, foi-me pedido que lhe enviasse o meu historial de treinos e kms corridos nos anos anteriores. Em 2013 tinha 350kms corridos, em 2014 620kms e em 2015 – até à data da conversa – tinha pouco mais de 1400kms. Ao ver estes dados, a conversa com o treinador foi mais ou menos isto:
– “Eduardo, estive aqui a ver os teus dados e se calhar deixamos o MIUT para o próximo ano, que achas?”
– “Mas eu sou capaz…”
– “A inscrição já está feita?”
-“Já….”
– “Bem, então não há nada a fazer e temos de trabalhar a sério.”
Não é preciso ser-se um génio para perceber que posso estar a ter mais olhos que barriga, que estou a ser um guloso da pior espécie e que me posso dar muito mal durante a prova. Eu também percebo isto. Sei que tenho de ter um ‘estômago’ muito bem treinado para conseguir engolir o que aí vem. Sei que estou a trabalhar afincadamente para que esta gulodice não resulta num ataque de diabetes e que tenha de desistir de comer este belo e enorme ‘doce’.
Espero, acima de tudo, ter mais pernas que barriga!
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