A queda de um mito. - EMdurance Runner
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A queda de um mito.

Ao subir a serra, a queda de um mito.
Quando decidi começar a
correr e a participar em provas, fui conhecendo novas pessoas que me
foram servindo de inspiração para querer sempre um pouco mais: um pouco
mais longe, um pouco mais rápido, um pouco melhor. Quando dei o salto da
estrada para os trilhos, as inspirações mantiveram-se, mas surgiram
novas. É natural, afinal de contas, estava a conhecer uma nova
modalidade onde havia pessoas que corriam dezenas de kms, em alguns
casos, centenas. E aquilo fazia-me uma imensa confusão como é que alguém
era capaz de correr tanto e durante tanto tempo e estar vivo no dia
seguinte para passear com a medalha ao peito. Tendo em conta que passei
dois dias a gatinhar depois do meu primeiro trail de 30kms e 4 dias com
um andar esquisito depois da minha primeira maratona, aquelas pessoas só
podiam ser sobrenaturais.
Entre algumas dessas pessoas que
passei a seguir atentamente, um gajo que se auto-apelida de “O Gordo”,
agarrou o 1º lugar e por lá ficou. A juntar aos seus feitos, a sua
escrita agarrava-me ao ponto de obrigar a minha namorada a ler as suas
crónicas e a seguir a sua página. O tempo foi passando e eu ia lendo e
vendo a sua evolução e as suas provas. “O Gordo” é finisher do MIUT e
finisher do UTMB, coisa que me deixava de olhos esbugalhados e queixo
caído uma vez que ele era gordo… Diz que pesava muitos quilos, mais de
100, umas suiças à homem, e isso ainda me deixava mais estupefacto.
Enviei-lhe um pedido de amizade pelo Facebook mesmo sem o conhecer ou
ter estado com ele. Quem sabe, ele podia marcar treinos e eu até podia
ir um dia com ele. Nunca aconteceu. O ir com ele, porque os treinos ele
anunciava-os.
Foi, portanto, com grande satisfação que soube que
ia estar com ele num treino em Sintra no sábado passado, organizado pelo
ZCS. Acho que estava mais nervoso em conhecê-lo do que com o treino.
Quando o vejo chegar, deixei-me estar quieto e calado no meu lugar, nem
lhe estendi a mão. Ele estava a cumprimentar quem conhecia e eu era
apenas o gajo novo que lhe dava pelo peito. Mas foi aqui que o mito que
criei à volta desta pessoa se foi desvanecendo. Afinal “O Gordo” devia
ser alcunha com muitos anos, porque de gordo não tinha nada. Aliás, a
cara apresentava sinais evidentes de magreza. Ok, é um gajo grande, alto
e corpulento, mas isso deve-se aos anos a jogar rugby. Suiças, nem
vê-las. A única coisa que vi foram dois troncos que ele chama pernas.
Juro que a barriga da pernas dele são maiores que as minhas coxas!
Depois, para alguém que diz estar a aprender a correr e que corre
devagar, que é sempre o último onde quer que vá, foi com alguma
desilusão que o vi a passar por tudo e todos, fosse numa descida ou numa
subida.
Mas a maior desilusão foi no seu carácter. Desde que
comecei a ler as suas crónicas e testemunhos que o imaginei como aquela
pessoa que está ali sempre para ajudar os outros, com uma palavra amiga e
um incentivo quando estamos a ir abaixo. Nunca esperei, por isto, que
fizesses o que me fez. Resumindo, enquanto ia o ZCS a liderar o grupo
por uma daquelas subidas infindáveis e técnicas que deixam as pernas a
arder, este senhor ia atrás de mim e ouvi-o dizer baixinho “Pergunta lá
ao Zé se ele vai estacionar”, ao que eu, cansado e sem conseguir
respirar ou falar, balbuciei qualquer coisa sem nexo. Foi então que ele
grita “Ó Zé, o Eduardo pergunta se vais estacionar na subida para nós te
passarmos!”. O que se passou a seguir foi um ZCS a desaparecer de vista
e um Sr. Ribeiro a correr atrás dele, enquanto se ria e nos ultrapassava a todos.
Quando acabei de subir, o mito tinha caído.
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