Ultra Trilhos dos Reis 2018 - Onde quase fui um rei. - EMdurance Runner
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Ultra Trilhos dos Reis 2018 – Onde quase fui um rei.

Quem me acompanha há algum tempo, seja na vida real ou neste mundo virtual, sabe que comecei a correr em 2010, fiz a primeira maratona em 2014, que em 2015 comecei a sério nos trilhos e rapidamente me aventurei num ultra trail, que em abril de 2016 tentei a primeira prova de ultra endurance que falhei – MIUT -, mas que no mês seguinte me redimi e terminei a OMD 100K, e, claro, que em maio de 2017 fui diagnosticado com esclerose múltipla.

Ora, não é difícil perceber que assim que comecei a participar em provas de trail, a minha vontade de fazer sempre mais escalou rapidamente. Portanto, já seria de imaginar que assim que tivesse recuperado do surto de EM iria participar numa prova. Preferencialmente, num ultra trail. Como se costuma dizer: bem dito, bem feito. No dia 14 de janeiro estava em Portalegre preparado para participar no Ultra Trilhos dos Reis 2018!

Pronto a enfrentar qualquer dragão.

Convém desde já esclarecer o título deste artigo e o porquê de dizer que quase fui um rei. Quando penso em reis e rainhas, penso sempre em alguém que tem todo um conjunto de pessoas para lhes satisfazerem todos os caprichos e ordens. O ser levado ao colo ou de coche é uma das vantagens. Bem, naquele dia 14 em que visitei pela primeira vez a Serra de São Mamede, ninguém me ajudou a correr, ninguém me aparou nas descidas, ninguém me puxou nas subidas. As únicas ocasiões onde me senti rei foi quando cheguei ao secretariado para levantar o dorsal, quando chegava a um abastecimento e era recebido com sorrisos e tambores e boleima, e quando me proporcionaram uma bela visita a uma serra que desconhecia através de trilhos maravilhosos (vá, e algumas “paredes” que me impossibilitaram de ver a paisagem ao meu redor pois só conseguia olhar para os meus ténis).

Como disse no final da corrida, posso resumir a prova em poucas palavras: descida amaldiçoada, subida dos infernos, fuga do castelo e subida do carrasco. Mas como já sabem, eu tenho algumas dificuldades em resumir, por isso, preparem-se para ficar a ler durante os próximos 52minutos!

 

Estou a brincar! Eu queria ter a capacidade para escrever sobre provas e transportar-vos para elas só através da imaginação, mas sofro de “síndrome da perífrase pleonásmica”, por isso, remeto-vos para o blogue do Quarenta e Dois onde podem “viver” a prova enquanto a leem. Mas fiquem desse lado, que por aqui vou contar-vos como foi a minha prova.

Começo por dizer que a minha preparação estava longe de ser a ideal, mas era a suficiente para eu saber que ia terminar a prova dentro do tempo limite. E foi com esse pensamento, o de terminar a prova sem ambições de tempo, que me deixei ficar para o fim da cauda do pelotão. Na partida/meta deixei os meus pais que me acompanharam nesta que foi o meu primeiro ultra trail pós EM. A estratégia era simples: seguir sempre a um ritmo confortável, mas rápido o suficiente para tentar acabar antes da noite cair e não ter de ligar o frontal. Quanto à nutrição fui unicamente com Tailwind, que se mostrou uma opção acertada, não tendo sentido quaisquer perdas de rentabilidade a não ser as da falta de treino nas pernas. Nos pés levei umas meias Mund Ultra Raid que me deixaram os pés impecáveis após 47kms. No coração levei todos aqueles que acreditam, tal como eu, que não será a EM que me vai impedir de realizar os meus sonhos.

A barba fica-me mesmo bem.

Gosto de partir atrás do pessoal todo.

Depois do início em alcatrão, saltamos para os trilhos de onde quase nunca saímos. Só conhecia a Serra de São Mamede pelos relatos que já li sobre as provas que lá se realizam, e tinha a sensação que seria sempre tudo muito técnico. Mas esta foi o tipo de prova que gosto. Começa pouco técnica para nos irmos habituando e aquecendo os motores e, a pouco e pouco, vai aumentando a dificuldade. Com uma estratégia bem definida em termos de ritmo e nutrição, quando dei por mim estava nos 20kms de prova, já com quase 1000+ e cerca de 3horas de prova. Até aí, foi um constante de single tracks parte pernas e uma subida dos infernos. Decidi então abrandar. Não que estivesse a ir muito rápido ou a sentir dificuldades, mas queria ter a certeza que chegava ao fim. Isso implicava uma boa gestão do esforço. Era a primeira grande corrida após um surto e, apesar do neurologista já me ter dito que não será a corrida que irá despoletar um surto, não quis abusar. Fui sempre no meu ritmo, constante e sereno, usando os bastões nas subidas e nas descidas que, a partir daqui já eram todas mais técnicas.

Levar os Bushido em vez dos Ultra Raptor foi um pequeno erro.

A fazer caretas…

Neste abastecimento fomos recebidos com tambores.

Sou um medricas nas descidas.

Nesta foto até parece que tenho pernas de quem treina!

Não vou dizer que a prova me estivesse a correr  mal. Quando ia a meio da mesma comecei a pensar que, com jeitinho, conseguia acabá-la dentro das 7horas, mais coisa menos coisa. E foi com esta feliz ilusão que me transportei até àquela que seria a grande subida. Grande aqui não quer dizer que são muitos kms a subir, nada disso, aqui significa que são cerca de 900metros com 300D+ numa encosta “despida” que demorei cerca de 25minutos a concluir, gentilmente apelidada de subida do carrasco.

Foto roubada do Quarenta e Dois.

 

Ao chegar lá acima, onde estava um posto de abastecimento, comi alguma coisa pela primeira vez. Estava com 30kms em 5h45m e, dada a minha inexperiência com o Tailwind, a fome apertou. Agora já sei que apesar de não sentir sede, convém ir bebendo o preparado porque é lá que estão as calorias.

Por esta altura vinha sem o impermeável, que tive de vestir assim que saí do abastecimento e “virámos” a serra. Foi também por esta altura que as pernas começaram a sentir a falta de treino e o poder do carrasco. Já sentia a pernas pesadas em plano, subir já nem a trote e nas descidas sentia demasiado impacto. Mas continuei. Sabia que era preciso uma tragédia para não terminar a prova. Tragédia essa que cheguei a suspeitar que fosse acontecer quando a partir dos 42kms comecei a sentir a mesma dor que me obrigou a desistir no MIUT 2016. Descer começava a ser difícil e o ritmo abrandou consideravelmente. Quando dei por mim o relógio marcava 44kms, tive de ligar o frontal e via a meta… bem longe de onde estava. Ao chegar à estrada de alcatrão que no início tínhamos subido, em vez de a descer em direção à meta, subimos-la mais um pouco e voltámos a entrar numa descida em trilho técnico que me obrigava a dizer “ai” e serrar os dentes com força sempre que dobrava o joelho esquerdo. Até que finalmente entrei naquele troço de calçada portuguesa que eu já conhecia e que ia dar à meta. A 100m dela, de telemóvel em riste para me tirar uma foto, estava o meu pai que cruzou a meta comigo. Do outro lado da linha da meta, a minha mãe a filmar a minha chegada.

Cliquem na imagem para verem o vídeo da prova.

Os 45kms previstos acabaram por ser quase 48…

As 7horas pensadas inicialmente acabaram por ser 9h06m…

A satisfação de ter terminado a prova, essa… foi mais que muita!

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1Comment
  • Filipe Torres
    Posted at 11:45h, 12 Março Responder

    Boa prova, Barbudo! Agora venha o Sicó que a malta quer saber o que se passou. Ah, e falta mês e meio! :O

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