Rock'n'Roll Meia Maratona Santander Totta 2017 - EMdurance Runner
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Rock’n’Roll Meia Maratona Santander Totta 2017

Em 2014, depois da Corrida do Aeroporto, escrevi isto: Porque correr é isto mesmo. É passar por um desconhecido e dizer-lhe
que “a meta é já ali”, que “é só mais um bocadinho” e “vamos juntos até
ao fim?”, e fazer-se isso mesmo, cruzar a meta com esse desconhecido e
saber que nos ajudámos mutuamente. É o que este aperto de mãos
representa.

Em 2017, durante a Meia Maratona de Lisboa , eu fui esse desconhecido, onde várias pessoas que passavam por mim ou que estavam no público me incentivaram a continuar. E isto emocionou-me de uma forma que não estava à espera.

Quando em Agosto fui presenteado com um dorsal para a Maratona de Lisboa o meu primeiro pensamento foi que a conseguiria fazer, que a distância não era novidade para mim e que melhor ou pior iria cortar a meta. Comecei a treinar mas só conseguia correr cerca de 10kms, com algum custo, e 1 a 2 vezes por semana. Entretanto inscrevo-me na Corrida do Tejo para me dar outra motivação mas os treinos continuaram iguais. Apesar disso, consegui fazer uma corrida melhor do que esperado. Isto deu-me um acreditar que terminar a Maratona seria, de facto, uma possibilidade. Só que entretanto, a 10 dias da mesma, e com apenas 3 treinos de 7kms, decidi fazer um treino de 21kms para perceber como estava. O resultado foi tão mau que quando acabei o treino enviei uma mensagem a um amigo a perguntar se queria trocar o dorsal dele da meia maratona pelo meu da maratona. Ele queria muito fazer a maratona e eu no máximo conseguiria faz os 21kms. Proposta aceite e em vez de fazer a minha vida para estar em Cascais às 8h, às 8h estava na Estação do Oriente pronto para apanhar o autocarro que me levaria até à partida na Ponte Vasco da Gama. Saí da cama sem vontade nenhuma de ir correr, fui passear o cão sem vontade nenhuma de ir correr, tomei o pequeno-almoço sem vontade nenhuma de ir correr, fiz a viagem de autocarro até à partida sem vontade nenhuma de correr, ter de esperar mais de duas horas na ponte para começar a correr, tirou-me a ínfima vontade que tinha de correr. Cheguei tão cedo que entre mim e a partida só havia a zona de “elite” e os Securitas.

Sentei-me para não cansar as pernas e fiquei na conversa com o João Campos que, na ânsia de fazer PBT e ganhar uma misteriosa aposta, chegou ao mesmo tempo que eu. O sol cada vez mais alto, a temperatura cada vez a subir mais, a hora de partida a chegar e toca de levantar que já não havia espaço para estar sentado, tal a quantidade de pessoas que já se empurravam atrás de mim. Quando faltam  20minutos para a partida tomo um gel da Stealth porque a digestão do pequeno-almoço estava feita e havia que carregar baterias. O pessoal de trás começa a empurrar cada vez mais, dá-se a partida para os da frente e os Securitas continuam à nossa frente de braços abertos a não deixar passar.  Primeiros gritos a exigir passagem e lá se desviam. Arrancava para conquistar mais uma meia maratona!

Como estava mesmo à frente e não gosto de ir ali a empatar quem vai para correr rápido, também eu tento ter um arranque veloz. Ao fim de 500m já tinha a boca completamente seca e respirava de boca aberta. Olhei para o relógio e ia à estonteante velocidade de 4:30/km. Como senti que a respiração estava a estabilizar, decidi manter aquele ritmo até sair da Ponte. Seriam 6kms e pouco menos de 30′. Nos meus pensamentos comecei a criar a estratégia para a prova: fazia o primeiro terço a este ritmo, o segundo terço a uma velocidade menor que me permitisse descansar as pernas e recuperar fôlego, e o último terço da prova num processo de aceleração continua para acabar a prova em grande.
Quando passei aos 7kms a média estava nos 4:35/km, o que era a velocidade a que corria quando o treino estava no seu auge e quando fiz o meu melhor tempo numa meia maratona. (Sou um gajo que facilmente se deixa levar pelo coração em vez da cabeça. Por isso, quando aos 7kms me sinto bem, lá se vai toda a estratégia ao ar.) Mas ao entrar no Parque das Nações e passar nos primeiros túneis o ritmo abrandou um pouco para os 5:30/km. E em vez de continuar àquele ritmo mais lento, forcei para os 5/km. Nada de grave até chegar aos 10kms, onde, apesar das oscilações de ritmo, fiz um tempo de 49′. Novamente, comecei a pensar que podia fazer um tempo próximo das 1h50′.
Até que cheguei ao km12 e, tal como no outro treino, comecei a quebrar. Mas uma quebra que me obrigou mesmo a caminhar. O calor que se fazia sentir, a juntar às condicionantes da EM, deixaram-me num estado de cansaço muscular e respiratório que não me permitiu correr mesmo que lentamente. A cada abastecimento bebia uma garrafa de água e despejava outra pela cabeça e pelos braços, numa tentativa de arrefecer o corpo. Foi aqui que começaram a passar as primeiras pessoas que me cumprimentavam, perguntavam se estava tudo bem e me incentivavam a não desistir. E quando alguém abranda ou para de correr para saber como estás, é algo que mexe connosco.
Daqui até à Praça do Comércio foi um constante entre correr, trote e caminhar. Queria começar a subir ao Marquês com 1h30′ e já ia com pouco mais de 1h40′. Tinha pouco menos de 20′ para fazer os cerca de 3kms que faltavam e conseguir um sub 2h. Se alguma réstia de esperança tinha, rapidamente desapareceu quando tive de voltar a caminhar ao passar nos Restauradores. Instalou-se algum desânimo que só era interrompido quando, em sentido contrário (a descer a Avenida da Liberdade), me cruzava com alguém que me reconhecia e gritava pelo meu nome ou me desejava força. E nem mesmo quando já estava no sentido descendente a coisa ficou mais fácil e só não caminhei mesmo por vergonha.

Enquanto descia a Rua Áurea olhei para o relógio e já estava com um tempo acima das 2horas. Dos três objetivos a que me propus para esta prova (correr sempre, ficar abaixo das 2h, sobreviver para contar a história), sabia que só conseguiria cumprir o último. Curva para a esquerda, curva para a direita, entrar no tapete vermelho e cortar a meta com 2h03m11s! Não foi de todo o meu melhor tempo, mas também não foi o meu pior. Acima de tudo fiquei feliz por ter terminado e por ter decidido, mesmo que à última da hora, trocar de prova. Penso que tivesse ido à maratona, havia uma grande probabilidade de desistir.

Os punhos cerrados é de satisfação por cruzar a meta.
Sobre a prova e a organização, muito se tem falado que falharam nisto e naquilo, que cada ano está pior, mas eu apenas posso falar daquilo que vivi e presenciei.
Levantamento do dorsal: A esmagadora maioria acha que não se justifica estar mais de 1hora para entrar na feira. Quando fui à Maratona de Madrid esperei o mesmo ou mais tempo para entrar na feira e outro tanto para ir à pasta party. O que acontece é que, com uma feira aberta desde quinta-feira, muitos decidiram ir só no sábado levantar o dorsal. O único erro que aponto é terem aberto as portas só às 10h. A possibilidade de trocar de dados lá também foi algo positivo.
Horários: A partida da maratona às 8h parece-me bem, a partida da meia maratona às 10h30 já não. O maratonista amador médio demora cerca de 4horas a completá-la, e o meio maratonista amador médio demora cerca de 2horas a completá-la. Se o arranque das provas tivesse uma diferença de 2h em vez de 2h30, haveria uma maior enchente de atletas a chegar ao mesmo tempo, aumentando assim a festa. Mais, quando a meia maratona começa às 10h30 e o último autocarro para a partida é às 9h, significa que mesmo assim tem de se esperar mais de 1hora numa ponte apinhada de gente, sem espaço para alguém se mexer ou sentar, e debaixo de um sol abrasador.
Abastecimentos: O primeiro abastecimento foi aos 6kms e foi apenas de água. A partir daqui ou era água, ou isotónico, gel e ainda houve um de sólidos com bananas e laranjas. Nunca senti que o espaçamento entre os abastecimentos fosse longo demais e em todos havia suficiente para quem lá passava. Seja uma prova de estrada ou de trilhos, nunca as encaro indo totalmente dependente dos abastecimentos da organização, por isso levo sempre alguma nutrição comigo e faço a gestão com aquilo que sei que vou encontrar.
Percurso: A partida de cima da Ponte é sempre giro, dando-nos uma vista fantástica sobre o Rio Tejo e a cidade. Como desta vez os percursos da maratona e da meia maratona não se juntarem, nem haver retorno a meio da prova, faz com que se consiga manter o focus na nossa corrida e não em tentar encontrar aquele amigo que vai numa prova diferente. ajuda também a não desanimar a ver passar por nós os primeiros quando ainda nem chegámos a meio. O facto da prova terminar no centro da cidade, em vez de perto  dum Centro Comercial no Parque das Nações, fez com que as ruas estivessem cheias de pessoas a apoiar-nos. Muitos deles turistas, é certo, mas eram os que faziam a festa ao longo do percurso. Uma grande enchente espanhola que gritava tanto para os seus compatriotas como para os restantes. As ruas entre o Rossio e o Arco da Rua Augusta fizeram-me lembrar a Maratona de Madrid onde tínhamos metro e meio de rua para corrermos, tal eram a quantidade de pessoas a ver-nos e a aplaudir.
Medalha e ofertas finais: A medalha finisher não só é bem gira como ainda tem espaço para se poder gravar o nome e o tempo de prova. No saco com a água e banana, o pacote de leite era dispensável. O gelado de água em vez do Magnum de champanhe do outro ano foi uma melhoria. Se bem que uma garrafa de isotónico seria o ideal.
NOTA FINAL: Quero agradecer a todos os que me cumprimentaram ou que abrandaram para saber se eu estava bem ao longo da prova, e pedir desculpa a todos aqueles a quem não respondi, mas a verdade é que a luta que travava para continuar levou-me todas as forças. Mas todas as lágrimas que libertei durante e após a corrida foi por vossa causa. Até breve, numa estrada ou num trilho.

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