MIUT - Madeira Island Ultra Trail 2018 - A segunda tentativa - EMdurance Runner
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MIUT – Madeira Island Ultra Trail 2018 – A segunda tentativa

Todos temos sonhos.

E não importa se são antigos ou recentes, se são mais simples ou mais complexos, quando os temos, queremos torná-los realidade.

Algures durante o ano de 2015 comecei a ter um sonho. Tentei realizá-lo em abril de 2016 e fiquei a meio. Em 2017, quase todos os meus sonhos ficaram num limbo de incerteza se seriam alguma vez realizados. Este ano, no dia 28 de abril, tentei novamente realizá-lo, com um desfecho semelhante ao de 2016. O sonho, todos sabem, é terminar o MIUT – Madeira Island Ultra Trail.

Antes de começar o relato desta minha segunda tentativa, há algo que quero dizer.

Eu compreendo quando as pessoas me dizem que já sou um vencedor, ou um herói, só por estar na partida mas a verdade é que isso é a parte mais fácil, bastando comprar a inscrição e estar lá a horas. A única coisa heróica que poderá haver na minha história é a de, apesar de ter esclerose múltipla, tentar manter os sonhos vivos e lutar por eles, tentando ao mesmo tempo aumentar a consciencialização sobre uma doença ainda um pouco desconhecida e mal interpretada pela sociedade.

E agora vamos lá então ao relato.

 

Quinta-feira, dia 26 Abril.

O dia anterior à partida foi a azáfama do costume. Fui à massagem, fiz as malas (porque se tivesse feito mais cedo, todos os dias ia ver se estava lá tudo e entrava em paranóia), fui para o aeroporto e encontrei muitos amigos e outros atletas que tinham o mesmo destino (era fácil perceber quem ia correr na Madeira, bastava olhar para os equipamentos das equipas, de outras provas ou simplesmente pelo tipo de calçado). Voo com alguns minutos de atraso, aterragem na ilha sem problemas, ir levantar o carro no aeroporto, seguir viagem até Machico para a casa escolhida e tentar jantar em qualquer sítio que estivesse aberto às 23h. Felizmente havia (e há) um restaurante, de seu nome Nóia, a 200m da casa, que ainda nos serviu. Depois do jantar, ir para casa descansar um pouco para acordar cedo e ir fazer check-in da prova, meu e da minha mana Lena que se tinha inscrito na prova Mini.

 

Sexta-feira, dia 27 de Abril.

Saímos por volta das 9h30, descemos até Machico e, ao chegar ao Fórum, rapidamente decidimos que o melhor era ir tomar o pequeno-almoço primeiro pois a fila estava longa. Com o estômago cheio lá fomos, entre risos, levantar o dorsal. Ao entrar no fórum, termo de responsabilidade esquecido em casa mas o que vale é que a organização já está à espera destas coisas e tinha lá muitos para nós. Ao preencher o meu termo, os voluntários lembravam-se de mim e disseram logo que queriam um novo resumo! Relembrei-me da receção que tive em 2016 quando, no meu dorsal, tinha o nome Excelente Pinto e não sabiam se era a brincar ou se era mesmo o meu nome. De novo, já na mesa do check-in, mais voluntários a lembrarem-se de mim e a desejarem boa sorte. Depois de tudo levantado, hora de ir ao almoço. Fomos a um restaurante ao lado do fórum que estava apinhado de atletas. Tão apinhado que uma atleta desmaiou e valeu a rápida intervenção de quem lá estava, incluindo a mana Lena enfermeira.

Depois do almoço, voltámos para casa, arrumei o saco para a base de vida e tentei dormir um pouco. Adormeci e acordei ao fim do que me pareceram 3 ou 4 horas, mas afinal foi só 1. Jantámos no mesmo sítio do dia anterior e, ao entrar, o dono perguntou-me se eu estava no Diário de Notícias, disse  “não sei mas é possível”. Foi buscar o jornal e lá estava o barbudo em destaque.

Apesar de ter carro alugado, em vez de ir nele para Porto Moniz, preferi apanhar o autocarro em Machico. Parecendo que não, comecei logo a entrar, mais a sério, na prova. Oportunidade de fechar os olhos e pensar em tudo o que me levou até ali, do que fazer em prova e de imaginar vários cenários, desde o vencer a prova a ter de sair logo nos primeiros 100m. Quando cheguei a Porto Moniz, já havia atletas espalhados por todo o lado, uns de pé, outros sentados e outros deitados. Quando estava em conversa com quem foi comigo e o António Vale (que encontrei ao entrar no autocarro), fui abordado pelo João Carvalho Joca – do Cork Trail Team – a perguntar-me se o Hugo Água – idem – já tinha falado comigo. A RTP Madeira, que estava a fazer o direto da prova, queria falar comigo. Por volta das 23h40, entrei em direto, falei uns minutos sobre o porquê do MIUT ser importante para mim e, quando saí de cena, corri para o pórtico da partida. Claro que estava mesmo na cauda do pelotão, o que, embora me tenha dado mais espaço para relaxar, deixou-me a pensar que tinha de acelerar um pouco para ganhar lugares e evitar algumas zonas de estrangulamento, que poderiam pôr em causa os tempos. De repente começa a tocar bem alto a Highway to Hell dos AC/DC, ideal para o sangue começar a fervilhar!

 

Sábado, 28 de Abril

00h00m30s! Começa o meu MIUT.

O ter partido mesmo na última posição, ao contrário de outras provas, aqui deixou-me ligeiramente nervoso. A verdade é que já conheço o início da prova e, apesar de ser algo ‘corrível’, existem zonas de estrangulamento que nos obrigam a ir num comboio que pode ser muito lento e que não permite ultrapassagens. Embora o grande medo de quase todos seja o corte em Estanquinhos, estava confiante que lá chegaria mais que a tempo, mas para isso tinha de conseguir passar o corte no Fanal e no Chão da Ribeira. Sempre que tinha oportunidade acelerava nas subidas, com a ajuda dos bastões, evitando ao máximo as escadas que encontramos na Janela da Ribeira. As escadas não são muito altas mas têm uma dimensão que não permite, pelo menos para mim, manter uma passada constante. E, claro, há que evitar escadas porque as mais complicadas ainda estavam por chegar.

Subir a Janela da Ribeira

A noite, ao contrário de 2016, estava perfeita. Um céu limpo sem nuvens que nos deixava ver a lua e que iluminava a serpente de luzes que subia a montanha, naquela imagem tão característica e impressionante. Em 2016, parece que a chuva só estava à espera do tiro de partida para começar a cair, uma chuva miúda, mas que parou ao fim de algum tempo. Assim, arranquei com uma t-shirt térmica e a minha EMdurance Runner, levando o impermeável na mala para qualquer eventualidade. (spoiler alert: se calhar não tinha perdido nada em ter arrancado logo com ele vestido). Da partida ao Fanal são apenas 13,9kms, com um corte às 3h15m. Parece confortável e exequível mas, se somos apanhados no tal comboio lento, pode complicar as nossas contas. Corri sempre que consegui, ultrapassei atletas sempre que possível, e cheguei lá às 2h55m! Abasteci um flask com Tailwind e segui viagem. Esperava-me, talvez, a descida mais complicada da prova, a que nos leva a Chão da Ribeira.

São só 5kms, mas com um desnível negativo de 900m e muito técnica. Fui aqui que, em 2016, caí uma vez e, na outra vez em que quase caí, dei um jeito qualquer ao joelho que viria a ser decisivo no desfecho final. Apesar de não estar a chover, o facto do clima da Madeira ser extremamente húmido e de ter chovido nos dias anteriores, fizeram o terreno estar enlameado e muito escorregadio. E foi aqui que percebi que tenho de arranjar uma solução para a minha visão. Com tempo húmido, em zonas fechadas por árvores e com o calor do corpo que emano, as lentes dos óculos começam a embaciar de tal forma que não consigo ver quase nada. E por muito que as tente limpar continuam na mesma. Tanto que a determinada altura não vi onde estava a pôr o pé, apoiei-o na ponta de uma rocha e lá fui eu ao chão. Só que desta vez deixei-me mesmo cair e não me tentei equilibrar. Bati com o braço com força no chão mas sem consequências a não ser a frustração de não conseguir estar a ver bem. Claro que enquanto eu fui aqui a descer devagar e a calcular todos os passos, houve gajos que passaram por mim a velocidades loucas e a darem saltos, fazendo um pouco de sky com os pés a cada passada que davam. Talvez um dia eu seja assim valente para o fazer. Mas pé ante pé e ao meu ritmo, lá cheguei ao Chão da Ribeira às 4h10m, 20 minutos antes do corte. É interessante ver a posição em que estava no Fanal e a posição em que estava no Chão da Ribeira. Dá para perceber perfeitamente que o meu maior problema continuam a ser as descidas.

Em 5kms perde-se 100 posições!

Depois de reabastecer, arranquei para aquela que para mim é uma das mais difíceis subidas que já fiz: o ataque a Estanquinhos.

Com um corte às 8horas, mais 30minutos que em 2016, e com cerca de 3h30 para fazer os 9,6kms com 1400D+, arranquei confiante que não teria problemas em lá chegar atempadamente. Ao olhar-se para o gráfico, imaginamos imediatamente que, ao sair do Chão da Ribeira, entramos logo num sobe infernal mas isso só acontece passado algumas dezenas de metros. O tempo continuava bom e eu a sentir-me em óptimas condições, sem qualquer tipo de dor no joelho que me fez desistir em Sicó. Depois de entrarmos num trilho que começou com alguns degraus tão típicos da Madeira, em terra e troncos, entrámos finalmente na “linha de comboio” que nos leva para cima, e para cima, e para cima,…. Digo “linha de comboio” porque é um single track íngreme e com alguma tecnicidade que não permite grandes ultrapassagens, a não ser quando alguém encosta um pouco para descansar ou comer. Eram cerca de 4h30 quando a humidade ficou mais forte. Achei que parecia nevoeiro ou ‘cacimba’ e continuei a minha vida. Foi então que a ‘cacimba’ se transformou em chuva, quase tão rápido que nem nos apercebemos que já estávamos quase debaixo de um dilúvio. Os atletas começaram a parar para vestir os impermeáveis e eu fiz o mesmo. Mas em vez de vesti-lo por cima da mochila, deixei-a a apanhar água, que era cada vez mais intensa. Entretanto chegou o vento que atravessava as árvores e sentíamos as rajadas como se não houvesse proteção. A chuva que caía era gelada, entrava por todo o lado do impermeável e dificultava ainda mais a terrível subida. É que se nós vamos a subir, a chuva descia, levando-nos os pés com ela a cada dois passos. Comecei a olhar para o relógio e a fazer contas, pensando no ritmo que teria de manter para chegar a horas.

Eram 6 horas da manhã e estava debaixo de chuva há quase 2. A progressão, apesar de lenta, era constante. As mãos, essas, também estavam num constante arrefecer em que, de vez em quando, tinha de mexer os dedos para saber se eles ainda estavam vivos. Aos 25kms, olhei de novo para o relógio e comecei a ficar preocupado. Ainda me faltavam quase 4kms e tinha 1h30minutos para fazê-los. Naquele momento, ia a um estonteante ritmo de 32’/km, o que, a mantê-lo, estava fora da prova antes de chegar a Estanquinhos. Mas esqueci-me que ali por volta dos 25,5kms, o inferno termina,  chegamos quase ao ponto mais alto e o que é um single track técnico de difícil progressão se transforma num estradão largo e onde se pode correr. Apesar de menos abrigado e de ser fustigado ferozmente pelo vento e chuva, deu-me um ânimo novo para correr e chegar a tempo de ainda recuperar o fôlego e comer uma canja quente. Não corri tão rápido como queria porque a chuva nos óculos não mo permitiram. Mesmo assim entrei em Estanquinhos, debaixo de uma chuva de aplausos (para mim e para todos os que ali chegaram), às 7h17m, apenas mais 15minutos que em 2016. Estava, portanto, vencida a primeira parte.

Mas foi aqui que também cometi um erro crasso e que ditou o final do meu MIUT. Quando entrei no abastecimento, larguei os bastões e fui pedir uma sopa quente, para aquecer as mãos enquanto a comia. E enquanto as mãos foram aquecendo um pouco, o resto do corpo começou a arrefecer muito rapidamente. O que começou por ser um tremer das pernas, em cerca de dois minutos era um tremer incontrolável de todo o corpo e um frio que nem me deixava falar. Tentei aproximar-me do aquecedor mas este já estava rodeado por muitos atletas e não consegui. Mas mesmo que conseguisse, já não havia volta a dar, o meu MIUT estava terminado em Estanquinhos.

 

Lembro-me perfeitamente que, em 2016, quando ali cheguei, vi muitos atletas embrulhados em mantas térmicas e que eu fiz de tudo para não me demorar muito tempo. Lembro-me perfeitamente que, em 2016, quando saí do abastecimento senti um baque muito forte de diferença de temperatura mas tinha o corpo quente e não estava a chover. Este ano, com a chuva e o vento, não devia ter parado tanto tempo no abastecimento. Devia ter ignorado o querer comer alguma coisa quente e seguido viagem. Mas não o fiz. E, enquanto tremia que nem varas verdes, olhava lá para fora e via a chuva a cair e o vento a empurrar a copa das árvores. Pensei que sou um Eduardo diferente de 2016. Sou um Eduardo com um diagnóstico de Esclerose Múltipla e que toma medicação que enfraquece, propositadamente, o meu sistema imunitário. Um Eduardo que não se pode meter em aventuras de apanhar uma valente gripe  que pode provocar sobre-infecções várias e que podem potenciar mais surtos e novas lesões. Um Eduardo que, apesar de ter o sonho de terminar esta prova emblemática, precisa estar em condições físicas para o tentar fazer numa próxima edição. Um Eduardo que ponderou muito bem todas as opções mas que, às 7h56, parou o relógio, sinónimo de que não iria continuar. Um Eduardo que, tal como em 2016 apenas tirou uma foto, curiosamente no mesmo sítio, mas se, em 2016, foi uma foto linda de um céu azul sobre um manto branco de nuvens cortado pelos raios de um sol que nascia, em 2018 foi uma foto de mim embrulhado numa manta de sobrevivência.

Triste e com frio

Claro que, a meio da manhã, quando a chuva parou e o sol apareceu, pensei que talvez pudesse ter continuado, talvez pudesse ter ignorado o frio e que talvez o corpo aquecesse e talvez tivesse corrido tudo bem. Afinal de contas, sentia-me bem fisicamente no que às pernas diz respeito e a lesão do joelho parece estar praticamente resolvida (praticamente porque nunca me doeu mas também faltou entrar na parte dos milhares de escadas). Mas a verdade é que, se tivesse continuado e tivesse corrido tudo bem, era um ‘herói’; se tivesse continuado e me visse numa situação crítica no meio de nada, era um irresponsável que não mede os seus actos. E não esquecer que, de Estanquinhos ao Rosário, são 8,6kms com 1km vertical negativo, onde a progressão não é a mais fácil e onde seria muito difícil o corpo aquecer. Agora, após quase uma semana, estou de consciência tranquila acerca da minha decisão. É que MIUT haverá para o ano e se o quero fazer convém estar bem de saúde.

Mas nem tudo foi negativo. Apesar de não ter concluído a prova, causei algum impacto mediático sobre a consciencialização do que é a esclerose múltipla e do que tento promover juntos dos portadores, cuidadores e sociedade. Foi imensamente gratificante ser abordado pela organização a felicitar o facto de estar a tentar realizar os meus sonhos, por muito loucos que eles possam parecer. Como já disse, não me considero nenhum herói por estar na partida mas acredito que possa ser um exemplo por dar o melhor que consigo durante as provas e não baixar os braços.

E ver a minha mana que mal tem tempo para treinar 5kms, ir fazer os 16kms da prova Mini e despachar aquilo em 2h33m, é um orgulho tão grande que nem consigo explicar. E ela gostou tanto que disse logo que iria começar a treinar para em 2019 lá voltar, desta vez aos 42kms!

A vencedora do MIUT!

Não podia terminar este resumo (que já vai longo) sem dar um obrigado muito especial à organização da prova que se juntou a esta causa e fez uma doação do valor referente à minha inscrição para a angariação que estou a fazer a favor da SPEM, com o intuito de lhes conseguir oferecer algum equipamento informático.

Quando todos querem tirar uma foto contigo, se calhar até sem saberem bem porquê.

E foi isto, meus amigos. Se isto fosse um combate de boxe, o canto vermelho do MIUT está a ganhar por 2-0, mas o canto azul do EMdurance Runner ainda não está KO e irá atacar em breve!

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